Amigos do coração e cardiopatas

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terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Cirurgia,entenda um pouco...

Queridos amigos,eu já fiz duas cirurgias cardíacas e percebo que muitas pessoas tem medo e pavor só de pensar em cirurgias,achei um trabalho importante sobre esse assunto e vou passar um pouco a cada dia para que vocês entendam melhor e se sintam mais confortável com a ideia de operar o coração.


textos de Rosa Helena silva souza da universidade do Paraná...



O coração tem sido mencionado ao longo dos tempos de diversas maneiras, seja
pela comparação feita pelos apóstolos ao se referirem à bondade e virtude, seja como
fonte inspiradora de poetas. Na verdade, mesmo inconscientemente, o coração tem
uma simbologia que está impregnada na mente das pessoas. Para muitos, ele simboliza
o sentimento e é considerado o centro das emoções, do amor, da vida, do corpo.
Numa visão biomédica, o coração é auscultado mesmo antes do nascimento de
uma criança, no intuito de avaliar suas condições de vida. Sente-se sua presença por
meio da pulsação e das alterações em seu ritmo, cujo significado é variado, pois a
sensação de uma pontada no peito pode indicar um infarto agudo do miocárdio, como
também pode expressar uma grande desilusão amorosa.
Como o coração é considerado um órgão vital, uma cardiopatia faz aflorar
sentimentos de angústia e de medo da morte, principalmente, quando a cirurgia
cardíaca é a única alternativa de sobrevivência do corpo enfermo. Dessa forma, o
tratamento cirúrgico cardíaco, além de ser um procedimento complexo, é percebido
por muitos como um acontecimento que tanto pode servir de fluxo para sua existência
como para aniquilá-la de uma só vez.
A visão de que o coração é um órgão central ou dominante do corpo faz com
que qualquer distúrbio em sua função seja interpretado como uma “metáfora para a
mortalidade súbita” (MORAES et al., 1999). Por isso, ser tocado nesse órgão mítico
pode significar para o homem uma transformação total em seu ser. Esse homem ao
qual me refiro é um corpo vivente que se encontra hospitalizado por problemas
cardiovasculares, necessitando de cirurgia cardíaca e seu coração não é motor do
corpo, mas sim seu próprio corpo. O corpo aqui expresso vivencia o estar entre a vida
e a morte, entre a saúde e a doença durante sua trajetória existencial e denomina-se
‘corpo enfermo’. Sendo assim, posso inferir que o corpo enfermo experimenta
momentos preocupantes, de aflição e de dúvidas, que acarretam sentimentos
desagradáveis e prejudiciais ao seu tratamento.
A cirurgia cardíaca é uma situação transformadora do corpo, que certamente
desencadeará mudanças e transições, gerando novas percepções sobre a vida futura.
Essa assertiva é confirmada por Paterson e Zderad (1988), ao referirem que, quando
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um ser humano está doente e o corpo sofre certas modificações, elas influenciam seu
mundo e sua experiência de estar nele. Portanto, compreender a perspectiva de mundo
que esse ser humano tem é essencial à enfermagem, e parece ser um dos primeiros
passos para o desenvolvimento de uma assistência humanizada que vise a atendê-lo em
suas especificidades e promover seu bem-estar.
Para Knobloch (1990), o ser humano que necessita de uma cirurgia cardíaca
vivencia uma situação de crise desde a descoberta do problema e tenta defender-se da
ansiedade advinda dessa situação. Complementando, Lamosa (1990) afirma que, antes
de decidir-se pela cirurgia que restaurará o órgão mitificado, o ser passa por inúmeras
consultas, tendo de encarar o ato cirúrgico por ser seu último recurso.
É importante ressaltar que, para submeter-se a uma cirurgia cardíaca, é
necessário realizar vários tipos de exames previamente – clínicos, laboratoriais,
radiológicos, hemodinâmicos e de alta tecnologia –, que podem parecer ameaçadores
para quem vivencia um período de incertezas, longe do convívio com sua família, seu
trabalho e sua sociedade. Compreendendo que esse momento é difícil para o corpo
enfermo e requer esforço para ser superado, o profissional enfermeiro, juntamente com
a equipe multidisciplinar, pode apoiar, orientar e avaliar a necessidade do corpo
enfermo, proporcionando-lhe suporte emocional e segurança. São eles que estão mais
próximos do corpo enfermo e podem estimulá-lo a expor seu mundo, seu ponto de
vista, discutir suas aflições, com a intenção de atenuar dúvidas e medos e, na tentativa
de amenizar suas dificuldades, auxiliá-lo a enfrentar a difícil crise, vivenciada num
momento atípico de sua existência.
Para tanto, é preciso que o enfermeiro lhe ofereça cuidados expressivos, que
adquiriu não somente com a habilidade técnica, mas também por meio da sua
percepção. A percepção é uma via de acesso ao mundo, essencial nas ações de
enfermagem, por possibilitar ao enfermeira conhecer e orientar o cliente durante o
processo de cuidar. Portanto, ela deve se colocar naquilo que percebe, ter sensações e
se deixar envolver intencionalmente, pois são essas condições que permitem “ver o
invisível no visível, correlacionar o olhar que escuta, o olhar atentivo ao olhar que fala
[...]” (POLAK, 1996, p.103).

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