Amigos do coração e cardiopatas
sábado, 28 de janeiro de 2012
cirurgias e o medo...
CORPOS AMEDRONTADOS – UMA REALIDADE A SER TRANSCENDIDA
O homem é mortal por seus temores
e imortal por seus desejos.
(Pitágoras)
Essa categoria foi selecionada, porque os aspectos evidenciados nas unidades de
significado que se relacionam ao medo são muito expressivos, apresentando
convergências individuais e gerais. Dentre os medos aflorados nos discursos, está o
medo da cirurgia, de ser cortado, de violação interior, de ficar marcado pela cicatriz e
o medo ocasionado pela possibilidade da finitude.
Conforme o dicionário de Psicologia e Psiquiatria Longman’s (apud PEIFFER,
1995, p.XV), o medo é definido como:
[...] uma emoção intensa, provocada por uma ameaça identificada,
envolvendo uma sensação de tensão desagradável, um forte impulso
de fugir, e reações fisiológicas, como batimentos cardíacos acelerados,
tensão muscular, e, em geral, mobilização do organismo para
debandar ou lutar. O medo não é provocado não apenas por um perigo
direto, mas por situações e objetos que representam esse perigo.
Ele aparece nas falas dos sujeitos da pesquisa de diferentes maneiras,
dependendo da intensidade com que os acomete, sendo referido como:
· preocupação: “eu só fico meio assim... preocupado, daí de repente, vai”
(S7);
· ansiedade: “Aí, até eles virem pegar a gente, né? fico ansiosa”(S10);
· angústia: “[...] se chegar a doutora e falar que eu vou fazer a cirurgia
amanhã cedo, aí começa aquele nervoso, não é nervoso, é tipo assim,
uma angústia” (S1);
· medo: “Eu estou com muito medo, eu tenho medo mesmo, tá?” (S11);
49
· ou até mesmo pânico: “Eu sinto muito pânico” (S8).
No entanto, o medo é ambíguo, inerente à natureza humana, pode defender dos
perigos, constituindo um reflexo indispensável para a sobrevivência, mas também
ultrapassar um limite suportável, tornando-se doentio e criando bloqueios
(DELUMEAU, 1990). Sua conseqüência é substancial e provoca, muitas vezes,
mudanças visíveis no corpo, como palidez, taquicardia, sudorese, choro e outros
desequilíbrios. Isso aconteceu com um dos sujeitos da pesquisa, que, durante seu
depoimento, não conseguiu conter o choro, refletindo, com essa forma de expressão,
sua corporeidade.
Conforme Peiffer (1995), ao observar os medos que se vivenciam hoje,
entende-se que eles dizem respeito principalmente às coisas que podem vir a acontecer
e não tanto às coisas que estão acontecendo no momento. Essa consideração encontra
reforço na seguinte fala:
Aí eu calculo o que pode acontecer... tenho dois filhos para
criar. (S1)
O medo causado pela possibilidade de morrer pareceu muito significativo,
motivo que me levou a iniciar a análise por essa vertente. Para Loss, Mantovani e
Souza (2003), o medo da morte é inerente ao desenvolvimento humano, é um medo do
desconhecido, somado ao medo da extinção, das perdas afetivas, da solidão e do
sofrimento.
Ao deparar-se com a possibilidade da morte, o corpo enfermo experimenta
sentimentos de angústia e aflição que, visíveis ou não, acompanham-no durante todo o
período perioperatório. Percebi essa situação já no primeiro discurso obtido:
50
[...]Então, aqueles outros dias em que eu soube que tinha que
fazer a cirurgia foram dias só de angústia, medo, apavoração!
Aqui eu fiz aquele comentário, eu disse: “Ai, meu Deus, parece
que eu estou indo pro corredor da morte”. Cada vez que vai se
aproximando, é aquele apavoramento! (S1)
O corpo enfermo encontra dificuldade de vivenciar o momento pré-operatório,
que lhe parece sinônimo de morte. Esse fato é agravado pelo distanciamento em
relação ao seu mundo, ou seja, sua casa, sua família e seus afazeres cotidianos. A
morte, que parece remota enquanto se está no corre-corre diário, aqui se mostra
possível e ameaçadora, causando temor insuportável, sendo encarada como um
acontecimento terrível, pavoroso, do qual não se tem domínio. Ela chega sem pedir
permissão e abate os corpos viventes, contrariando qualquer desejo que possam
manifestar.
[...] é uma cirurgia de risco, que pode levar a óbito. Se Deus
quiser o óbito, eu não vou poder fazer nada também. (S6)
A certeza da morte e a incerteza da sua hora expõem o corpo a muitas angústias
e anseios. Mesmo que o ato de morrer tenha um significado pessoal e único, de certa
forma, o sujeito assume a sua condição e passa a ver a sua morte com uma dimensão
naturalmente finita, que acontecerá num tempo determinado e próximo (VAZ et al.,
2001).
Assim como no discurso acima, pode-se perceber também nas falas seguintes
não somente a incerteza em relação à morte, mas também sentimentos de fragilidade e
de impotência, que fazem com que o corpo enfermo procure amparo na fé e na
religiosidade, na tentativa de amenizar seus medos:
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário