Assim, a percepção tem grande importância na prática
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profissional da enfermagem, uma vez que oferece subsídios para investigar a realidade
e proporciona recursos para o entendimento do ser humano. Cabe aos profissionais da
enfermagem compreender a realidade do corpo que vivencia uma enfermidade e
observar suas reações, isto é, perceber como ele entende e aceita os fatos a sua volta.
Como afirma Merleau-Ponty (1996, p.6), “a percepção não é uma ciência do
mundo, nem mesmo um ato, uma tomada de posição deliberada; ela é o fundo sobre o
qual todos os atos se destacam e ela é pressuposta por ele”. Desse modo, a observação
da doença no corpo não pode ser sentida somente do ponto de vista biológico, pois
essa maneira de ver é oriunda do pensamento cartesiano, que dicotomiza e reduz o
corpo a mero objeto, obedecendo à mente e às regras do espírito (POLAK, 1996).
Há de se salientar que o modelo biomédico é fruto desse pensamento
positivista, que admite tratar o coração desconsiderando a totalidade do corpo e o
contexto social, cultural e emocional em que se insere. Perceber o cliente de cirurgia
cardíaca além do que seu corpo exterioriza, observando nele suas particularidades, é
essencial para que ocorra interação efetiva dos profissionais que o assistem nesse
período de muita fragilidade existencial.
Segundo Huf (2002, p.18), “o paciente é constituído de um todo que engloba a
sua cultura, os seus princípios e valores, a sua religião ou filosofia de vida, a sua
situação socioeconômica, o seu estado emocional e biológico, entre outros”.
Realmente, é essa visão de corporeidade que deve permear toda relação entre o corpo
cuidador e o corpo cuidado no âmbito da saúde, da formação acadêmica à prática
profissional. Entretanto, nem sempre se observa isso como propósito das atividades
desenvolvidas pelos profissionais da área de saúde em seu cotidiano.
Percebe-se que os corpos enfermos que adentram o hospital em busca de
tratamento são afastados de seu mundo particular e, dessa maneira, privados da
companhia dos amigos e da família, que poderiam apoiá-los. Durante esse período,
esses clientes perdem o controle de si, confiando sua vida a pessoas estranhas.
Segundo Olivieri (1985), eles perdem a privacidade e liberdade, tendo de se adaptar
logo a um ambiente diferente, têm saudades de casa, porém, são obrigados a aceitar as
normas, na esperança de chegar a ser o que desejam: seres saudáveis.
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Na internação cirúrgica, todo o processo perioperatório é relevante, todavia, o
período pré-operatório de cirurgia cardíaca parece muito significativo para esses
clientes, devido à fragilidade emocional que os envolve nessa circunstância. Isso leva a
refletir sobre o papel crucial do enfermeiro no período pré-operatório, no sentido de
direcionar seu cuidado não somente para ações instrumentais ou técnicas, mas para as
ações expressivas isto é, relacionadas à subjetividade (LABRONICI, 2002), com o fito
de amenizar esses sentimentos.
Desse modo, entendo que a visita pré-operatória de enfermagem pode contribuir
para a diminuição do estresse do corpo enfermo, quando o enfermeiro dispõe-se a
ouvi-lo intencionalmente, pois o relacionamento interpessoal é indispensável para a
identificação dos significados que ele dá à doença, ao internamento e ao tratamento
cirúrgico (ZAGO e CASAGRANDE, 1996).
A compreensão do significado desse momento pode auxiliar o enfermeiro a
prestar cuidados expressivos ao corpo enfermo, principalmente na sala de recepção do
centro cirúrgico. Tal fato me impulsiona a querer apreender o que é vivenciado pelo
corpo enfermo no pré-operatório de cirurgia cardíaca.
Assim, a questão norteadora que serve de fio condutor para a apreensão da
realidade do paciente é: Quais são os sentimentos e as percepções vivenciadas pelo
corpo enfermo no pré-operatório de cirurgia cardíaca?
Ao buscar compreender o que é vivido por esses atores em seu processo saúdedoença,
esta pesquisa tem como objetivo geral:
· Apreender os sentimentos e as percepções presentes no discurso do
corpo enfermo que se encontra no pré-operatório de cirurgia
cardíaca.
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