Amigos do coração e cardiopatas

Amigos do coração e cardiopatas

domingo, 29 de janeiro de 2012

O medo...normal



Sabe-se que a maioria das pessoas tem uma religião ou acredita em um ser
superior ao qual se apega nas horas difíceis. Para o estudioso Tiele, que viveu no
século XIX, “religião significa a relação entre o homem e o poder sobre-humano no
qual ele acredita ou do qual se sente dependente. Essa relação se expressa em emoções
especiais (confiança, medo), conceitos (crença) e ações (culto e ética)” (apud
GAARDER, HELLERN e NOTAKER, 2001, p.17).
A maioria dos homens são seres religiosos e, sob uma visão holística de
religiosidade, busca suporte emocional no que considera divino, vinculada ou não a
uma religião específica, para tornar-se mais forte. Segundo Chauí (2001), as principais
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finalidades da experiência religiosa são: proteger os seres humanos contra o medo da
natureza; oferecer-lhes a esperança de vida após a morte; oferecer consolo aos aflitos,
dando-lhes explicação sobre a dor física ou psíquica; servir de acesso à verdade do
mundo, fornecendo explicações para a origem, a vida e a morte de todos os seres.
De acordo com Huf (2002), a vivência religiosa traz benefícios positivos ao
enfrentamento das situações angustiantes, promovendo a saúde mental e o equilíbrio
interno. Ela é um fenômeno humano concretizador da fé, sendo que,
independentemente da religião, aquele que tem fé supera mais efetivamente os
desafios circunstanciais da vida. O exercício da fé como fonte de esperança diminui a
ansiedade e favorece o enfrentamento das situações de crise.
Para Leloup e Hennezel (2003, p.26), a religião representa um esforço do ser
humano na busca de sentido para seu sofrimento, sua morte e sua existência. Já a
espiritualidade, independentemente da experiência religiosa, faz parte do ser humano,
constituindo sua própria essência. A espiritualidade fá-lo avançar na aceitação dos
limites da inteligência e incompreensão diante do sofrimento, pois, uma atitude
espiritual é uma atitude de confiança na profundidade do homem. Os autores
esclarecem que, na relação com o cliente, não é preciso falar de espiritualidade, mas
sim procurar vivê-la e irradiá-la, mediante a maneira de ser. Ser espiritual é dar esse
passo a mais.
A partir da constatação de que a vida pode ser interrompida ou ameaçada de
extinção a qualquer momento, o ser humano lida com a realidade objetiva do morrer.
Subjetivamente, qualquer corpo passa a ser terminal, a partir do momento em que
percebe ou fantasia a morte como uma realidade próxima e possível, posicionando sua
existência diante dessa tomada de consciência (BARRÊTO, 1992).
Fazendo uma retrospectiva histórica das atitudes do homem frente à morte até o
século X, constata-se que o homem não a temia e compartilhava-a com seus parentes,
inclusive com as crianças e amigos, até o fim. A morte não era vista como a separação
de alma e corpo, mas como um sono misterioso do ser indivisível. Ela representava a
purificação do corpo para que ele pudesse receber a alma eternamente. O ato de morrer
acontecia publicamente, às vezes, demorando dias. As emoções eram expressas sem
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excessos e o ritual era aceito como um cerimonial presidido pelo moribundo, no qual
se percebia que a morte era inerente à vida. Naquela época, o homem acreditava que
os mortos então repousavam até o dia em que acordariam no paraíso, conforme Araújo
e Vieira (2001).
Esses autores referem que a consciência do homem foi invadida pela
preocupação com o dia do juízo final, no qual haveria uma separação dos justos e
condenados, de acordo com suas boas e más ações, a partir do século XII, quando o
homem começou a ter dúvidas sobre a sua imortalidade e salvação. No declínio da
Idade Média, a morte passou a ser vista como extermínio da individualidade e do
corpo. Devido ao apego à matéria e à paixão pela vida que o homem tinha nesse
período, ele sentia horror da morte física, que representava a sua derrota, uma vez que
tinha consciência da finitude humana. Até hoje, a morte é considerada, por alguns
povos e culturas, um fracasso, uma interrupção de projetos de vida, sendo expressa
mediante o medo e a negação dela mesma.
Como a cirurgia cardíaca pode significar morte para o corpo enfermo, assimilar
a notícia da necessidade cirúrgica para ele é complicado, e, nessa circunstância, surge
o choro, como um desabafo:
Quando falaram pra mim: “Olha, a cirurgia vai ser amanhã,
tá?” Então, com a minha esposa, eu simplesmente me desabafei,
chorando [...] de uma sensação que oprime na hora, né? como
qualquer ser humano, e, a partir do choro, ela se expande pra
fora. E daí, volto a ser o mesmo homem, sem problema nenhum.
(S6)
A maioria das pessoas acredita que chegará à velhice, concluindo um grande
ciclo vital. A expectativa em relação à vida é de que se possa crescer, trabalhar, casar,
ter filhos, vê-los criados, casados e desfrutar da aposentadoria na companhia dos netos.
Segundo Stedeford (1986), poucos são os que pensam na morte e a aguardam com
tranqüilidade. Ela é aceita apenas pela minoria, que inclui: idosos que consideram já
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ter completado suas vidas ou que já perderam muitos de seus contemporâneos; os
deprimidos e os frustrados, que sentem a vida como um peso e querem fugir dela; e os
que esperam reunir-se ao parceiro amado mediante a morte.
Para Sartre (1997), a morte é um acontecimento da vida humana, um limite que
revela não mais do que sobre o próprio ser humano, e, por ser bastante elástico, não o
deixa perceber se a vida aproxima-o ou distancia-o desse evento, a finitude. Para o
autor, também há grande diferença de qualidade entre a morte que acomete no limite
da velhice e a que acontece na juventude ou maturidade. Ele completa esse
pensamento dizendo que “esperar a primeira é aceitar o fato de que a vida seja uma
realização limitada, uma maneira entre outras de escolher a finitude e designar nossos
fins sobre o fundamento da mesma. Esperar a segunda seria o mesmo que esperar com
a idéia de que minha vida é uma empresa falida” (p.657).
Estar preparado para a morte, conforme Stedeford (1986), leva à idéia da boa
morte, que não chega de repente, mas quando o ser humano já envelheceu, vivenciou a
morte de muitos parentes, de amigos, acostumando-se com a idéia da inevitável
transcendência. No entanto, o preparo para a morte é relativo, ambíguo, no qual se
pode perceber que mesmo esses seres humanos que já envelheceram sempre acreditam
que existe alguma coisa para se concluir antes de morrer. Para essa autora (1986,
p.55), a morte passa por quatro trajetórias, e os cardiopatas, que têm uma doença
progressiva do coração e precisam de cirurgia, encontram-se numa trajetória concebida
como “morte incerta com prazo conhecido, quando o problema seria resolvido”. Diz a
autora que esses cardiopatas começam a aceitar o fato de que, se não se operarem,
morrerão num futuro previsível, e sofrem de uma ansiedade pré-operatória, mas que
também traz esperança de que algo está sendo feito.

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